Ana Barreto, tem 44 anos, é potiguar, mora em Natal – RN, professora da Rede Municipal de Ensino e poeta, por paixão e opção! É assim que se define. Formada em Letras, com Especialização em Educação de Jovens e Adultos. Ana sempre teve na escrita, uma de suas maiores aspirações. Alguns dos seus poemas já circulam pela internet, em blogs e comunidades do Orkut.

Considera-se uma poeta em formação e na realização dessa construção poética, concretizou um sonho acalantado desde quando começou a escrever poesias, na época em que estava terminando o 2º grau, por volta de 1981: A edição do seu livro de poesias, EU TE AMO. Eclética, aprecia toda a poesia ditada pela emoção, pois é ela que a move a escrever as suas. Como fontes de inspiração, cita Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Mário Quintana e Florbela Espanca, entre tantos outros!

Meu Blog Pessoal: http://mulherinlove.blogspot.com

RUGAS

Em cada sulco na tua pele tão gravado
Existem traços de uma vida que viveu
São tantas marcas, digitais do teu “eu”
Contam histórias e os casos já passados

A tua infância em um tempo malogrado
Num resquício, a bela moça que sonhou
Histórias saudosas de alguém a quem amou
Algum desejo por muito tempo acalantado

Teus traços dizem do que a ti foi ofertado
De cada alegria e cada dor por que passou
Coisas que, na tua pele, o destino desenhou

E num momento, em um canto bem guardado
Nas tuas lágrimas ou teus sorrisos revelados
Retratam ao mundo o que a vida te causou...

Ana Barreto



ORAÇÃO PELOS AMIGOS

Entrego em tuas mãos a vida
Daqueles que me são caros
Porque são preciosos e raros
Os que habitam o meu coração

São seres, Senhor Amado,
Dotados de muita virtude
Protege-os em plenitude
Guia-lhes razão e emoção

Presenteia-os com paz e com saúde
Dá-lhes alcançar a magnitude
Do que é capaz um coração

Pois só quem em ti acredita
Usufrui da felicidade bendita
Que se alcança com Jesus no coração...

Ana Barreto



TEU ANJO

Te guardarei, meu grande amor...
No escuro da noite que nos ronda
Em algum pesadelo que te assombra
Velarei teu sono enquanto a noite for...

E para que não tenhas nenhum dissabor
Plantarei ao teu redor anjos singelos
Enfeitados em asas e dourados anelos
Para arrancar da tua alma qualquer dor

E quando o dia despontar em esplendor
Deitarei em teu corpo todo o meu amor
E colherei em minha boca o teu sorriso

Pois para ver-te feliz, em meu coração
Faço-te versos emanados de emoção
De dou o mundo, amor... Se for preciso...

Ana Barreto



NÃO TENTE ENTENDER

Por que o rio em cantoria deságua no mar
Por que o mar lambe a praia em suas ondas
Por que um arco íris tinge o céu ao estiar
Por que todo esse mistério que nos ronda?
Por que as estrelas salpicam a negra noite
Por que a Lua e o Sol não podem namorar
Por que o vento frio nos golpeia como açoite
Por que vulcões têm um tempo pra queimar?

Por que os bichos têm instinto e vão caçar
Por que os trovões vêm na noite apavorar
Por que a árvore em sua sombra dá guarida?

Por que tanto te amo e não consigo mensurar
E mesmo tentando eu não consigo te explicar
Esse amor, meu amor... É amor de muitas vidas!

Ana Barreto



INQUIETAÇÃO

Minha alma esperançosa não acalma
Anda assim, inquieta, a lhe antever
Em cada recanto ela vislumbra você
Limpa as paredes, apaga os traumas

Minha alma tão passional faz drama
Revira os fatos, buscando se saber
Ainda assim não pode se reconhecer
Tamanho é o ardor da sua chama

Que a consome assim, despudorada
A minha alma desejosa não adormece
E incansável fica a te pedir em prece

Que antecipe as horas da chegada
Que faça voar o tempo que fenece
E o seu amor em segredo me confesse.

Ana Barreto



ENCONTRO FURTIVO


Tudo muda aqui quando você aparece
A minha respiração, meus batimentos
Acredito que vivi para esses momentos
Quando você vem, atendendo uma prece

E esse meu coração a você se oferece
Como se acabassem todos os tormentos
Como abraçando todos os sentimentos
Mas você se vai e minha euforia fenece

Queria amor, que chegasse o instante
Que eu não fosse vê-lo assim distante
Com um minuto marcado para partir

Queria amor em um grito retumbante
Gritar a você em um apelo errante
Não vai, amor! Por favor... Fica aqui!

Ana Barreto



SONETO DA PARTILHA


Vivo a tentar riscar-te um soneto
Algum que se faça belo e perfeito
Algum que jamais tivesse sido feito
Para poder, como uma dádiva, te doar

Nele eu poria a Lua e o firmamento
Arrancaria a amargura ou o tormento
Eternizaria a fugacidade do momento
Ansiosa que estaria para te presentear

E quando lesses, enfim o soneto escrito
Teu coração, quiçá, não contivesse o grito
Transformado em sussurro a me acalmar

Pois a ti, meu amado, eu daria minha alma
Para que descansasses em mim a tua calma
E essa doce clareza de me encontrar...

Ana Barreto



FOTOGRAFIA

Estou tentando em vão te vislumbrar
Nas linhas escuras de uma fotografia
Tentando ver em ti o que mais havia
Alem do que a máquina pôde captar...

Quem sabe quantos sonhos irias sonhar?
Daqueles que se sonham à luz do dia
Daqueles que colocam o mundo em harmonia
Apenas, tão somente, pra nos encantar?

Aqueles sonhos que te serão a imagem
Das coisas que deseja o teu entendimento
E quem sabe em algum louco pensamento

Tu me vejas refletida na rápida paisagem
E voltes o filme que retrata o sentimento
E me tornes teu amor... Por um momento...

Ana Barreto



LONGA ESPERA


Quero que tenhas em mim o aconchego
Das horas tórridas e loucas do teu dia
Quero que em mim encontres a melodia
Que na tua cantiga completa o enredo

Quero que venhas para mim sem medo
De que eu possa machucar-te ou me ferir
Quero devolver a tua arte de sorrir
Sem percalço, sem culpa, sem segredo

E te prepararei o ritual da minha vontade
Calarei a tua fome com a minha verdade
Tu me colarás no peito a me aninhar

E te direi que arde em mim tanta saudade
E que é essa a constante e dolorosa necessidade
De quem ficou tanto tempo a te esperar...

Ana Barreto



PASSARINHO

Desenhei as tuas asas, passarinho
Num risco terno para te dar leveza
Com cuidado doce para dar certeza
De que em teu cansaço terias ninho

Colori teu corpo em meu carinho
Fiz negra e macia a tua plumagem
Que voando solto, sabor de aragem
Transita na rosa, ignora o espinho

Te desenhei com uma garra afiada
Para segurar forte a vida desejada
Sem ferir jamais, na tua firmeza

Te desenhei com a alma apaziguada
E em meu coração te fiz uma morada
Para que o meu abraço, teu abrigo seja...

Ana Barreto



RENASCENDO


Guardei nessas gavetas o meu desalinho
Encontros loucos do meu eu, do que eu sou
E a felicidade eterna desse nosso amor
Foi a esperança que embrulhei no carinho

Roto papel, vazio, feito velho pergaminho
Meus olhos fechados para não ter que o ler
Teus sentimentos no teu modo de escrever
Incandescentes feitos plumas de arminho

Na noite finda, no cantar de um passarinho
Pesadamente dos meus sonhos despertei
E desse amor que por ti sinto já nem sei

Pois a essência no seu corpo é meu ninho
E a minha vida em tuas mãos eu entreguei
Refazendo em ti, os muitos rumos que tomei...

Ana Barreto



INALCANÇÁVEL

Quisera eu escrever-te um soneto
Porém fugiu-me às mãos o sentimento
Porque elas não entendem o momento
Nem a loucura que me toma o peito.

Quisera eu gravar-te cada traço
Nesses riscos escoados no papel
Mas não saberia desenhar-te um céu
Nessas curtas linhas que ora faço.

É que bate uma saudade tão louca
Que, quisera eu, o que cala essa boca
Voasse mil quilômetros de distância
E que, por fim, alcançasse a plenitude
Do que me guia em cada gesto e atitude
De minh’alma e a tua em consonância.

Ana Barreto



SENTIRES TANTOS


Amo a palavra que tu calas, louca
E o fremido dos teus braços quentes
Amo a carícia da tua boca ardente
E os gemidos tantos da tua voz já rouca

Amo o teu olhar de tigre enjaulado
Que me acelera o pulso em profusão
Amo quando prendo minha respiração
E navego na fome do teu querer guardado

Amo me entregar aos teus desmandos
E deixar que me tenhas ao teu comando
Acasalando, numa só, nossas loucuras

Amo sentir-me acelerado o coração
E pouco a pouco nosso amor ir soletrando
Na minha língua e na tua em comunhão...

Ana Barreto



PERMITA-ME


Silêncio...
É madrugada...
Não acorde os meus sonhos
Que teimam em sonhar com você.
Permita-me encontrar, amar...
Deixa que a porta se abra
E em outro mundo
Eu me veja...
Mulher, amante, amiga
Parceira de tantas vidas
Mãos dadas nesse caminho sem fim.
Permita-me entrar e ver
Que não há razão para a dor
Para a lágrima teimosa que cai...
Permita-me a sensação do toque não sentido
O beijo que minha boca não provou.
Beijo com sabor de eternidade
Gosto de saudade
Saudade eterna do teu amor...

Ana Barreto



O BEIJO

Um beijo fugitivo
Escapou da minha boca
E fez piruetas loucas
Pra na tua boca pousar.

Era um beijo ardente,
Com gosto quente,
Um que, cautelosamente,
Eu tentei guardar.

Um beijo desvairado,
Desses que, se não
Tomamos cuidado,
Vem nossa paz nos roubar.

Um beijo mal intencionado,
Que te beijou sem cuidado,
Pegando você de soslaio,
Disposto a te recordar.

Dos beijos que
A minha boca quente,
Teimosa e mansamente,
Insiste em pra ti guardar...

Ana Barreto



MEU LUGAR

Nos caminhos mal traçados do destino
Meu corpo percorreu em desatino
Cada veio crivado no teu...

Na ânsia de desejos incontidos
Te escolhi meu abrigo
Nas tempestades dos desejos meus...

Na tua presença em minha vida
Encontrei a cura das feridas
Aquela dor mal resolvida
De um amor que no tempo se perdeu...

E se agora te busco com paixão
E se anseio por teu corpo em comunhão
É que vejo em você toda a verdade
A tão doce e esperada saciedade
Que entrego nessa hora em tua mão...

Ana Barreto



MORA EM MIM


Em tudo e por tudo
Mora em mim a certeza da fragilidade,
O gosto doce da saudade,
O saber do coração que arde.

Mora em mim a felicidade
De sonhar e acordar embevecida.
Mora em mim essa distância dolorida
Do amor que me ponho a esperar.

Mora em mim o sorriso matreiro,
Aquele ar alegre e zombeteiro
De quem se põe com a vida a conspirar,
De quem espera n’outro tempo despertar.

Em tudo e por tudo
Minh’alma voa enternecida,
Terna, plena, enlouquecida...
Entregue ao prazer de amar.

Ana Barreto



TUA CURA

Quero entender essas voltas do mundo,
Quero sentir essa dor aguerrida,
Quero em ti mergulhar bem profundo
E cuidar e curar cada tua ferida....

Quero saber o que habita teu coração,
Que de tão calmo te torna febril,
Quero enxergar em ti cada emoção,
As que te olhando meu olho não viu...

Quero construir enfim tua felicidade
E viver contigo uma outra verdade
E gozar pra sempre do nosso direito

De sonharmos juntos e secretamente
Nossos desejos que tão docemente
Vamos tecendo em realidade...

Ana Barreto



DESPERTAR

Diz-me de que são capazes tuas mãos
Ao achar a nascente dos desejos meus
Apossando-se tanto e fazendo-os teus
Por que brincas tanto com meu coração?

Não sabes amor, que é hora de partir?
A noite foi-se embora, o dia já nasceu
Esqueça agora de tudo que aconteceu
Vai, enquanto posso deixar-te seguir

Não era assim que nosso amor queria
Mas prefiro isso que viver em agonia
De acordar vazia nessa minha cama

Vai amor, a minha pele ainda vivencia
A nossa noite tórrida de tanta fantasia
Vai, amor... A vida real te chama...

Ana Barreto



SEJA BREVE


Não canse meu amor, apresse o passo
Aqui desse lado, continuo a te sonhar
E aqueles beijos que ousaste imaginar
Serão parte do nosso primeiro abraço

Vem amor, não pare, aperte o laço
Aquilo que nos une está a te esperar
É tanta fome que eu sinto de te amar
Que o coração bate em descompasso

Vem meu amor e de nós não desista
Que eu para ti desenhei cada pista
Dos muitos caminhos pra me encontrar

Vem meu amor, que eu te desejo sorte
Se não vieres decretarás minha morte
Vem e me abraça... E se faz meu par...

Ana Barreto



DE AMOR E SOMBRAS


Quisera tantas vezes amar novamente
Sentir de novo o coração descompassado
Sentir o fulgor de ter meu pulso acelerado
Fazer brotar em meu corpo a tua semente

Quisera provar de novo o teu beijo ardente
Ter aquele teu olhar a me despir enamorado
E depois do amor ter teu calor apaziguado
Aninhado no carinho de um abraço quente

Porém tudo passou envolto, bem lentamente
Nas brumas do desejo que fez-se reticente
Tu me davas a perceber e eu não conseguia

O teu amor que me doou como nascente
Partiu-se, aos poucos, calma e docemente
Levando consigo a luz que em mim havia...

Ana Barreto



REENCONTRO


Em peregrina oração refiz teu nome
E tantas bênçãos, amor, pra ti pedi
Que nos meus tantos desejos me perdi
Em sendas desse amor que me consome

No meu caminhar, no rumo que retome
Haverá você em tudo o que eu vivi
Todo gesto teu, teu modo de sorrir
O teu modo de me tocar na tua fome

Em minhas preces tantas te busquei
E por concessão divina te encontrei
A minha procura, cheio de saudade

Meu amor, te amo tanto que nem sei
Mas do nosso sonho jamais acordei
Nele eu construí a nossa realidade...

Ana Barreto



DIVAGAÇÕES

Hoje me abateu uma imensa saudade
Daquelas que acontecem sem explicação
Daquelas que nos dominam a emoção
Em que se constrói a nossa realidade

Um arrebatar intenso de vontade
E um pulsar estranho do meu coração
Um respirar pesado, um turbilhão
Algo que me põe a ti, com igualdade

E assim sinto o teu chamado a pulsar
Nos veios do meu corpo, a viajar
Conheço, amor, o teu querer sem fim

E nesse amor que a mim vem dominar
Em todo sonho que me ponho a sonhar
Está você, a parte boa que há em mim...

Ana Barreto



PERDA DE IDENTIDADE


Penso em você no meu tempo livre
Porque livre, assim, o pensamento voa
Não apagarei de mim esse sorriso à toa
Você foi o maior amor que eu tive

E se hoje amargo essa triste solidão
Em minha mente vaga, a sua voz ressoa
Foram tantas coisas lindas e tão boas
Que gravaram em meu peito, o seu coração

De tal modo, um com outro se confundia
Que eu nem sabia se era algo que nos unia
Ou se éramos um só, envoltos nessa paixão

Só sei que o meu amor ao seu se reunia
E nesse sentimento, a minha vida eu resumia
Foi por esse amor que perdi minha razão...

Ana Barreto



SOU PARA VOCÊ


Sou estrela regida pela saudade
Sou universo de amor a desvendar
Sou a sede e toda fome de te amar
Sou o caminho para tua liberdade!

Sou as asas que te põem a voar
Sou a que faz ou espera acontecer
Sou a que vive do desejo de te ter
Sou aquela nascida para te amar...

Sou o viço que desperta a madrugada
Sou a alma que te assombra enamorada
Sou a realização das coisas que sonhar

Sou aquela que te acolhe em doce corpo
Como a nau perdida que chega ao porto
E encontra um lugar seu para ancorar...

Ana Barreto



ANTIGOS AMORES


Antigos amores trazem a emoção
Que em nosso redor jamais finda
Guardamos tanta lembrança ainda
Mesmo quando se partiu o coração

Os antigos amores vem e se vão
E deixam nossa vida em desatino
Perdemos as rédeas do nosso destino
Partem-se os "sins", ficam os "senãos"

Antigos amores nos relegam à solidão
E mesmo assim em nós fica o desejo
Arquivado com a força de um beijo

Que nos assalta e nos rouba a razão
E será esse sempre o nosso ensejo
Reviver o amor... Em seus arpejos...

Ana Barreto



VENTO

Quando o vento por mim passa
Conta-me baixinho tantos segredos
Fala-me de alegrias, dores e medos
Me circunda, rodopia, faz pirraça

Levanta-me a saia, revira-me os cabelos
Esse vento traz-me rimas em canção
E faz tantas piruetas com minha emoção
Que meus versos voam e nem tento tê-los

O vento leva-os para lugares perdidos
E sopra-os em ouvidos desprevenidos
Propagando os segredos do meu coração

Esse vento fugidio é pra mim um delator
Que conta a todos minhas dores de amor
E faz loucos acordos com a solidão...

Ana Barreto



MENINA DAS BRUXAS


Quando menina eu sonhava uma boneca
Dessa que só o dinheiro pode comprar
Mas minha mãe não o tinha pra me dar
Eu só tinha bruxinhas de pano, carecas...

Mas para mim eram princesas em festas!
Para bailes encantados eu as levava
E nas suas mãozinhas tortas segurava
Como se fossem as mais lindas bonecas

O tempo passou, eu cresci mansamente
E do meu corpo fértil germinou semente
Numa filha linda que meu Deus me deu...

Então comprei muitas bonecas reluzentes
Para acalmar aquele coração carente
Da menina das bruxas, que não morreu...

Ana Barreto



EU, MULHER


Nasci mulher e deve ter sido opção
Gosto de ser incompreensível
Gosto de ir além do que é tangível
Gosto de me guiar pela comoção

Gosto de fazer clima, esconder o tesão
Gosto de contestar o que é plausível
De alcançar o que dizem inatingível
Gosto de ser inteira, alma e coração

Gosto de sentir-me linda e cobiçada
Gosto de ser numa poesia decantada
Gosto que me dominem a razão

Gosto de perder a minha sanidade
Gosto de ser mulher, de verdade
Dessas tão regidas pela emoção...

Ana Barreto



FRAGILIDADE


Tu queres saber qual é o norte
O rumo certo pra seguir teus passos
E caminhar sem confrontar percalços
Queres caminhos livres, queres sorte

Talvez, assim, tu te sintas forte
Para mover as pedras do caminho
Para tirar da flor, o frio espinho
Que tua pele rasga em fundo corte

Mas é assim que a vida a ti ensina
E tens que conviver com a tua sina
Lutar por paz e por melhor futuro

E nesse momento a tua mente atina
"Sou mulher, não sou mais menina!
Porém, ainda sinto medo do escuro!"

Ana Barreto



INCOMPLETA

Partes do que sou eu
São pedaços tão teus
Que nem me atrevo a resgatar
São fagulhas e centelhas
De emoções tão verdadeiras
Que não ouso explicar
São resquícios de emoção
Do meu louco coração
Que insistiu em te amar
São defeitos e virtudes
São as tuas atitudes
Que me ponho a recordar...

Ana Barreto



NATAL


Viajando em sonho, dia claro
Vejo a minha terra tão querida
Minha Natal linda e guarnecida
Por esse Sol de brilho tão raro

Natal por lindas praias banhada
Tem do mundo, o maior cajueiro
Natal de povo lindo e festeiro
É pela Lua, fartamente iluminada

Falar de Natal é falar de raízes
Ver a beleza em todos os matizes
Deixar bradar bem alto a emoção

Linda Natal de culinária saborosa
É um lugar de natureza harmoniosa
Natal... Que descompassa meu coração!

Ana Barreto



DO-AÇÃO

Na hora da partida, os olhos deixaria
Para que flores fossem contempladas
Para que dores fossem amenizadas
Devolvendo a uns, a luz do novo dia

Num gesto simples, tão desprendido
Um rim, um fígado, o amor num coração
Nas dor imensa se estendendo a mão
Dando a outras vidas, mágico sentido

Se no sofrimento de uns está contido
O desejo certo de ver ser atendido
O necessário para reviver a emoção

Que o bom Deus nos dê mais sentimento
E no meio da saudade um pensamento
De ver uma vida se renovar na doação!

Ana Barreto



BORBOLETAS

Em vivas cores de arco-íris despontam
Vagueando entre as flores perfumadas
Borboletas de vários matizes cravejadas
Rumo ao céu sem fim, com pressa apontam...

Quem sabe não levam consigo algum encanto
Do meu jardim florido e pontilhando
Sua beleza onde passam e então voando,
Cobrem o meu céu de multicolorido manto?

São borboletas livres e, no entanto, deixam
Para trás as suas marcas de cor e harmonia
Decerto um mágico encanto nelas havia

Pois em cada pouso leve em que nos beijam
Plantam em nós pelo sempre uma alegria
Colorindo de saudade o fel do nosso dia...

Ana Barreto



ARCO ÍRIS

Vejo o arco íris em cores de cascata
Vem se derramando do céu em tropel
No alto azul, muitas nuvens de papel
Deitam sua sombra pela verde mata

Dali até onde vai a imensa ribalta
As luzes brilham nas folhas em anel
Nesse espetáculo que colore o céu
O Sol quer brilhar mais, numa bravata

E ao contemplar tudo, eu, ser mortal
Sinto cada cor do arco íris assim refletida
Em cada canto escuro que enseja vida

Vislumbro essa dança de prazer vital
Um jogo de cores de beleza desmedida
De amores e sonhos... E de despedida...

Ana Barreto



ASA PARTIDA

Eu era o teu anjo e te velava o sono
Tecia teias de carinhos para te engendrar
Mas uma dor estranha, que não quis sarar
Mostrou-me a realidade, desse engano

Te entreguei meu amor em abandono
Mas não foste merecedor da minha oferta
E se em mim alguma dignidade resta
Buscarei por paz, esse será meu abono

Pois que em mim morava a inquietude
De não crer mais naquela tua virtude
Quando amor que tu me dizias sentir

Uma dor desmedida feriu meu sentimento
E essa dor sentida, nem por um momento
Deu-me alguma mostra de querer partir...

Ana Barreto



NÃO DEIXE QUE ME PRENDA A TI


Não deixe que me prenda a ti pois nada tenho
Além da capacidade de amar-te sem reservas
E se de mim alguma distância tu conservas
Não te aproximes pois bem sabes a que venho

Tenho o corpo maltratado e franzido o cenho
Pelas tantas coisas que a vida não releva
Quando me arranca a luz, me põe em treva
E me envolve e prende em seu cruel engenho

Não deixe que me prenda a ti pois nada tenho
Além de um coração sonhador e machucado
Mas que ainda pulsa num querer desesperado

E se me deixares meu amor, em ti prender-me
Serás a cura plena desse meu amor cansado
Que tanto na vida amou... Mas amou errado...

Ana Barreto



SONETO DO DESPERTAR


Acostumei-me à minha lágrima
E à sua autonomia de querer se derramar
Como um sopro adentrando o coração ferido
A lágrima rebelde insiste em me delatar...

E banhando-me o rosto tristonho
Essa lágrima que eu tentei conter
Denuncia o meu mundo de sonhos
As quimeras que eu tentava esconder...

De tal maneira que não posso deter
Nessa vertente a lágrima escorre
Constatando a fantasia que hoje morre

A realidade se fez de desamor
Do triste pranto que reflete a agonia
Da lágrima que agora encontra companhia...

Ana Barreto



CONSENTIMENTO


Permito aos meus cabelos outros ventos
E os toques de mãos que não são as tuas
Verdades estanques que se fazem nuas
São lembranças revividas em lamentos

Permito-me sentir outros sentimentos
E todas as febres de amor que não vivi
Negando à minha boca o direito de sorrir
São fugazes, amor, esses meus momentos

Permito-me te amar assim, infinitamente
E fazer dessa saudade louca e inclemente
A força que me move sempre na tua direção

Permito-me não esquecer tantas verdades
E despir do meu corpo todas as vaidades
E deitar em paz... E dormir com a solidão...

Ana Barreto



QUIMERA

Em vão, dentro de mim, tentei te encontrar
Revendo velhas cartas, antigas fotografias
Buscando as lembranças das tantas alegrias
Desisti da procura, pois não pude te achar

E eu, que tantas coisas precisava te falar
Tive que desistir da busca, ver-te perdido
Dentro de mim, em algum lugar esquecido
Nem minhas esperanças eu pude alimentar

Te apaguei de mim e sequer me dei conta
Em outros rumos o meu caminho aponta
Seguirei mais leve, já sei ler as entrelinhas

Talvez, dentro de mim, tu jamais tenhas estado
Creio ter sido eu, no meu querer desesperado
Que te fantasiei, para não seguir sozinha...

Ana Barreto



INTIMIDADE


Que se avolume a dor!
Venha! Não tenho medo!
Já desvendei o teu segredo
Contado em outros poucos amores...

Venha, pois já sei do teu malogro
Sou-lhe íntima e velha conhecida
És rotineira em minha vida
Vem! Vamos jogar o mesmo jogo!

Venha dor, pois nada mais me resta
Nem alegrias, nem amores
E se um dia tu te fores
Pede à felicidade que entre pela fresta!

Ana Barreto



ASSIM SE DEU

Foi o teu medo que ergueu uma muralha,
Foi o teu corpo que travou uma batalha
Contra a força do que em te despertei.

Foi tua precaução, teu cuidado,
O teu zelo imenso e desvelado
Que te fez renegar o que te dei.

Foi a tua dor outrora sentida,
Foi a saudade que deixou ferida
E te impediu de saber o que eu sei.

Foi a tua prudência conspurcada,
Foi a tua covardia descarada
A culpada do amor que não se fez...

Ana Barreto



A DOR QUE DÓI


A dor que dói não é aquela contundente
Aquela que me faz carente
De um afago,
De um beijo teu...
A dor que dói é a da faca cortante
Do silêncio repousante
Em que tu
Optaste descansar...
A dor que dói é a dor de te ver refeito,
Enquanto eu vejo meu mundo desfeito
Eternamente a te esperar...

Ana Barreto



DESCAMINHOS


Bem sei meu amor, que me refaço
Nesses caminhos tortos que eu trilho
Tentando, nesse passo, manter o brilho
Transpor barreiras, superar percalços

A dor, quando chega, eu a desfaço
E o meu orgulho trago como filho
Minhas alegrias por aqui partilho
Esse é o destino em que me traço

No sofrer em vão não mais me enlaço
Busco sempre a partilha de um abraço
Me desenlaço de amores maltrapilhos

Não sei se nesses atos eu aqui fracasso
O que sei é que conquisto cada espaço
Que tu deixaste em teu passo andarilho.

Ana Barreto



REVIRAVOLTA

A partir de hoje eu quero a minha liberdade
Soltar essas amarras que me prendem a ti
Quero ter de volta o meu direito de partir
Quero recuperar a esperada tranquilidade!

Quero poder deitar todas as noites e dormir
Sem perder o sono a ficar pensando em nós
Quero hoje abrir mão desse destino algoz
Que me fez perder toda a vontade de sorrir.

Quero ter a quem de novo eu possa amar
Não quero mais ter que sofrer ou que chorar
Quero mandar embora esse meu ar sisudo...

Quero novamente acarinhar, abraçar e beijar
Quero cantar bem alto e também poder dançar
Quero saborear a vida, amor... Em quase tudo...

Ana Barreto



ROMPENDO ELOS

Hoje eu deixei de respirar o seu ar
Extirpei de mim o que de você restava
Perdoe-me, mas sua presença magoava
E eu não pude amor, mais continuar

Perdoe-me se parti assim, sem lhe avisar
Acho que por isso você não esperava
Porque todas as coisas que eu sonhava
Inesperadamente vi ruir, só pude chorar

Perdoe-me mas seguirei outros caminhos
Vendo flores muito mais do que espinhos
Esse dom você não conseguiu de mim tirar

Buscarei amor, olhar uma outra paisagem
E se nela eu vir a sua menor passagem
Eu sei que fugirei para não mais errar...

Ana Barreto



CONSTATAÇÃO


Por que quando me ponho a sonhar
Minha vida vem e me chama à razão?
Crava fundo e forte meus pés no chão
Me acorda brusca, do meu torpe delirar!

Cruel, revira o meu avesso pra ensinar
Delata-me no espelho o rosto sonhador
Revela-me a verdade de uma velha dor
Ao ver meu sonho partir e ter que acordar

Mestra impaciente em sua língua ferina
Faz-me cumprir essa minha triste sina
Castelo de sonhos eu sinto em mim ruir

Porque te chamei de volta eu não sei
Pois fizeste piada do amor que te dei
Eu devia, amor, ter te deixado partir!

Ana Barreto



POR OPÇÃO

Por mais que meus sonhos sejam quimeras
Por mais que meus invernos anseiem primaveras
Por mais que eu queira felicidade
E que deseje liberdade

Por mais que o tempo passe
Por mais que eu não veja a outra face
Por mais que o toque não aconteça
E que a esperança feneça

Por mais que eu não sinta um beijo
Por mais que clame o meu ensejo
Por mais que me falte aquela mão
E que eu sufoque a emoção

Por mais que tudo não conspire
Por mais que a realidade não me inspire
Por mais que a razão diga não
O que me move é o coração...

Ana Barreto



PEDAÇOS DE MIM

Trago traços de ternura em minha face
Apesar de tudo que a vida lhe escreveu
Limitando espaços num sorriso ateu
Apagando o brilho que no olhar restasse

Trago gestos de carinho em meu enlace
Esse sentido doce, ainda não morreu
Mesmo tomada pelo sofrimento meu
Por só ouvir o que o coração falasse

Trago no peito um machucado coração
Que se deixou serpentear pela ilusão
E nunca soube conviver com a saudade

Trago o olhar turvo na lágrima sentida
Por entender que passei a minha vida
Transformando tua mentira em verdade.

Ana Barreto



AUTO-RETRATO

Por mais que eu tente, eu não sei me definir
Sou simples e nessa simplicidade me resumo
Em um sorriso franco e um olhar profundo
E nos fios brancos que meus cabelos vêm tingir

Em meus dedos longos já não trago alianças
No coração ainda repousam loucas fantasias
E no meu pensar resvalam velhas nostalgias
É minha memória embotada de lembranças

Meus pés cansados já pisaram tantos chãos
E os teimosos calos que povoam minhas mãos
São reflexos de tantas lutas já travadas

E em meu espírito irrequieto mora a emoção
De me sentir viva no pulsar de um coração
Que olha a tudo em esperanças renovadas!

Ana Barreto